As tranças são usadas há anos e carregam a identificação de culturas. Mas, nos últimos tempos, um penteado de origem africana recebeu outro nome.

ou
mandraka

É nagô

texto original: caroline nunes POR:  fernanda rosário

Será fruto de racismo e do privilégio branco?

No Egito Antigo, quem possuía muitas tranças passava mensagens de riqueza material e abundância. Dentre os penteados, o mais antigo é a trança nagô, de origem africana, feito rente ao couro cabeludo.

imagem: Reprodução/ Negrxs50+
- Pesquisador Evandro Carvalho

Durante a escravização no Brasil, as tranças eram utilizadas para identificar diferentes grupos de origem africana e serviam como mapas para as fugas planejadas.”

No entanto, a trança nagô tem sido conhecida pelo nome de mandraka nos últimos tempos. Para a artista visual Íldima Lima (Illi), essa ressignificação gera um certo apagamento da cultura e estética negra.

fotografia: Annie Spratt/ Unsplash

"Criou-se esse novo termo para definir um estilo de trançado ancestral que sempre foi usado pela cultura negra – e, consequentemente, marginalizado –, de maneira a torná-lo aceitável”

- Íldima Lima
- Íldima Lima

"As reformulações de nomenclatura são graves porque são formas de apagamento cultural e se posicionam como uma forma contemporânea de apropriação e transplantação cultural”

Para a pesquisadora e trancista Amanda Coelho, conhecida como Diva Green, a modificação de “nagô” para “mandraka” é uma das facetas do racismo estrutural no Brasil. 

fotografia: Acervo Pessoal de diva green
- Diva Green

"Por meio de nossos cabelos, contamos histórias e ativamos memórias que se conectam com a autoestima de nossa população negra. Mudar o nome significa nos afastar de lugares que nos potencializam”

- ÍLDIMA LIMA

"A pergunta que me faziam ao me ver de trança era se e como eu lavava meu cabelo. Duvido que se faça essa ou outra pergunta similar a uma mulher branca de tranças, o que é substituído por um elogio”

Diva Green salienta que, além de se apropriar dos símbolos negros, o racismo estrutural faz a população negra adotar outras culturas, a fim de promover uma falsa aceitação. 

fOtografia: @alyssasieb/ Nappy

Porém, quando o povo preto retoma o uso de sua estética, como os penteados de origem africana, ocorre o retorno à ancestralidade, que cria novos imaginários.

fOtografia: Jackie Parker/ Unsplash

Illi diz que a apropriação cultural foi banalizada e resumida em poder ou não fazer algo de outra cultura. Para ela, a questão é o esvaziamento que o uso indiscriminado faz com signos históricos.

fotografia: pinterest

A artista pontua que mais importante do que focar na proibição é refletir sobre a forma como os elementos da cultura negra são deslocados e remodelados em diferentes áreas como moda, artes e outros.

fOtografia: MyLoview
- ÍLDIMA LIMA

"A questão da apropriação cultural é sobre uma estrutura de poder, ou seja, não é sobre indivíduos, mas sobre estruturas sociais. Cultura não pode ser tendência, pois não é descartável”

Diva Green destaca a importância das tranças para a construção da autoestima de mulheres negras, em especial, as que passam pela transição capilar.

fotografia: acervo pessoal de Íldima Lima

A trançadeira acredita que para evitar a apropriação e o afastamento da cultura negra é necessário que a população preta se orgulhe e insira elementos negros em seu cotidiano. 

fotografia: Bibliotecas do Maranhão
- diva green

"O auto-amor é poderoso. Para que ele aconteça e permaneça, é necessário alimentar nosso imaginário e retomar nossos costumes e práticas de um período que antecede a colonização”

DESIGN

IMAGENS

TEXTOS

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