Quem te ensinou a se odiar? Em uma sociedade estruturalmente racista e no contato com outras pessoas e influências que discriminam a beleza ou a presença negra, há um abalo sobre a própria sensação de inadequação.

nariz e o pregador

texto original: fernanda rosário   POR:  victor lacerda
ilustração: dora lia
- emile brito, publicitária e
designer de moda

"Meu nariz nunca foi algo que pensei muito sobre, mas era ‘naturalmente’ ignorado. Todas as minhas fotos eram registradas no ângulo de perfil, então de alguma maneira eu acreditei que a minha aparência era inadequada".

ARQUIVO PESSOAL/PIN: EMILE BRITO

A publicitária relata que sua mãe já contou histórias sobre ter usado pregador de roupas para tentar afinar o nariz quando criança, algo que buscou não reproduzir na criação dos
quatro filhos.

Entretanto, mesmo sem o repasse dessa prática no ambiente familiar, em contato com outras pessoas e influências que discriminam a beleza ou a presença negra direta ou indiretamente, há uma sensação de inadequação.

A jornalista e servidora pública federal Fernanda Miguel lembra que sofreu um impacto quando saiu do conforto do núcleo familiar, local em que recebia afeto e elogios, e foi para a
pré-escola.

- FERNANDA MIGUEL

"Na entrada da pré-escola, o que mais causou impacto pra mim foi descobrir que eu não era bonita, porque em casa eu era linda. Meus pais reiteravam a minha beleza o tempo inteiro. Aí quando cheguei na pré-escola com outras crianças majoritariamente brancas era diferente".

Nesse ambiente, Fernanda conta que sofria algumas agressões físicas, como apertos no nariz e puxões no cabelo. Ela também conta que sua mãe já fez relatos sobre como as maternidades antigamente tinham a prática de incentivar as mães a fazerem massagem no nariz dos recém-nascidos para afiná-los.

De acordo com a psicóloga infantil, pedagoga e psicopedagoga Marília Vieira, o que um adulto fala para uma criança tem muito valor e impacta de forma negativa ou positiva a vida adulta dependendo do que disser.

Em 2018, a produtora de conteúdo Gabi Oliveira fez um vídeo chamado ‘Tour Pelo Meu Rosto’ em que relata ter passado por questões semelhantes com a própria aparência na infância, utilizando pregadores de roupa no nariz ou deixando de sorrir em fotos.

REPRODUÇÃO YOUTUBE: GABI oliVEIRA

Gabi retrata algo histórico e refletido pelos ícones negros mundo afora. Em um discurso proferido em 1962, o ativista afro-americano Malcolm X dirige uma série de questionamentos para a audiência que aponta como a supremacia branca criou mecanismos que ensinam às pessoas negras a se odiarem.

REPRODUÇÃO YOUTUBE:
CRISTOVAM RAMOS NETO.
Veja a tradução aqui

Em fevereiro deste ano, a produtora de conteúdo Emile Brito repercutiu um estudo, em seu canal, que fala sobre como o formato de nariz mais largo foi uma característica determinada por diversos fatores ao longo da evolução humana e que relaciona regiões geográficas africanas a condições climáticas e ambientais

REPRODUÇÃO INSTAGRAM: EMILE BRITO
- EMILE BRITO

"Para mim, conhecimento é a maior ferramenta de autonomia para a valorização da nossa autoestima. Meu intuito é que pessoas pretas compreendam que elas não são a versão falha de um ideal humano. Nossos traços, a nossa cor, o nosso cabelo, todas essas características foram decisivas para que nós sobrevivêssemos".

DESIGN

IMAGENS

TEXTOS

Capa: Dora Lia
Diagramação: I'sis Almeida
Alma Preta
Arquivo pessoal: Emile Brito e Fernanda Miguel
Victor Lacerda
Fernanda Rosário

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